UFMG pede desculpas
Após mais de cinquenta anos desde a compra dos corpos do Hospital Colônia de Barbacena, UFMG se pronuncia
Por Kerlon Santos e Soraya Flóri

Em março de 2026, a Universidade Federal de Minas Gerais fez um pedido público de desculpas pela compra de corpos de internos do Hospital Colônia de Barbacena para uso em aulas de anatomia. A então reitora Sandra Goulart Almeida assinou a declaração no dia 18 de março, reconhecendo a aquisição dos cadáveres provenientes do Colônia.
“[...] a Universidade reconhece que a compra de corpos e seu uso em atividades de ensino violaram a memória e a dignidade de pessoas que viveram e morreram em condições desumanas nos manicômios de Barbacena.”
O pedido de desculpas após longos anos de silêncio gera atenção devido sua hora tardia e também nos faz questionar sobre qual era a exata relação entre a instituição e o que ficou marcado como um dos maiores símbolos manicomiais da história do país.
É importante ressaltar que o objetivo desse texto não é recontar de maneira detalhada as atrocidades que ocorreram no Hospital Colônia, e sim mostrar a relação da UFMG com os corpos do Colônia, as conquistas da Luta Antimanicomial e as reverberações do caso ainda nos dias de hoje.
O Hospital Colônia
Para contextualizar, o Hospital Colônia de Barbacena foi um hospital psiquiátrico do interior de Minas Gerais que operou ao longo de quase todo o século XX, recebendo pacientes com transtornos psiquiátricos, mas também todo tipo de indesejado pela sociedade. O hospital ganhou fama terrível pelas barbáries cometidas contra milhares de pessoas que ali passaram, no que ficou conhecido como Holocausto Brasileiro. Lá, epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, e crianças eram submetidos a “tratamentos” cruéis e abusivos. Cerca de 70% dos internos do hospital não possuíam sequer um diagnóstico, estavam ali apenas para serem mantidos longe da sociedade. Aproximadamente 60 mil internos perderam suas vidas no hospital.
As pessoas chegavam em trens ao hospital, amontoadas em vagões de carga e despejadas no hospício. Os pacientes eram submetidos a inúmeras formas de degradação da dignidade humana. Às vezes, comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim e eram constantemente espancados, violados e torturados. As mulheres grávidas passavam fezes sobre suas barrigas para que ninguém as tocasse, mas, quando davam à luz, seus filhos eram roubados. Nos momentos de maior lotação, chegavam a morrer dezenas de internos por dia. Existem relatos de que os choques elétricos feitos nos pacientes chegavam a sobrecarregar a rede elétrica do município.

O caso rendeu grande comoção nacional na década passada após a publicação do livro-reportagem O Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, em 2013. No livro, a jornalista denunciou com detalhes o genocídio conduzido nas instalações do hospital. Três anos após a publicação, Arbex e Armando Mendz lançam o documentário de mesmo nome, trazendo entrevistas exclusivas de pessoas envolvidas com o Colônia.
A denúncia não ficou restrita ao livro de Daniela Arbex. Em 2024, Virgílio de Mattos, professor da Universidade Federal de Ouro Preto e ativista na luta antimanicomial, publicou junto ao Conselho Regional de Psicologia Quarta Região o livro “Mercadoria: O corpo do louco morto”. Nele, o autor conta a história de suas pesquisas sobre o comércio de corpos do Hospital Colônia e compartilha entrevistas com pessoas que trabalharam no local, além do levantamento de documentos e arquivos que comprovam as violências.
O Comércio da Morte
É muito difícil descrever com detalhes como funcionava a venda clandestina de cadáveres, já que a mesma era escondida ao máximo. Mas, segundo Virgílio, somente um funcionário foi responsabilizado, sofreu um processo administrativo e foi demitido. O funcionário, tratado pelas iniciais G.F. durante o relato, foi descoberto pelo autor em meio a entrevistas com antigas trabalhadoras do hospital que apontaram agiotagens de G.F.
G.F. tomou posse no cargo de “relações públicas” em 1969, bem quando teve o registro da primeira venda. Sua função era receber os familiares dos pensionistas e não pagantes, controlar a entrada e saída das correspondências e, o mais interessante, controlar a distribuição de peças anatômicas às faculdades de medicina conveniadas. Desde antes de G.F. assumir o cargo, as faculdades de medicina já recebiam cadáveres vindos de Barbacena. O que ele passou a fazer foi apenas cobrar por esse serviço, pelo menos se tem registro que o comércio se iniciou com ele
“Haveria quem fosse morto por excesso de medicação impregnante, como relata a Baeta? [uma das trabalhadoras entrevistadas] Por descuido ou de forma dolosa? Os violentos eram mortos? Precisavam ser mortos e depois de mortos, além de não darem mais trabalho, davam lucro? Teria havido uma deliberada vontade de matar por parte do Estado e viu-se ali uma oportunidade de negócios, como gostam de dizer os publicitários? A produção industrial de corpos mortos aconteceria apenas por negligência? Ou tudo não teria passado de obra do acaso, que mesmo durante um naufrágio jamais poderia ser abolido? Enfim, esta última é a única hipótese improvável.” | Trecho retirado do livro Mercadoria: O corpo do louco morto, de Virgílio de Mattos
A UFMG e os Corpos de Barbacena
Nos arquivos do Museu da Loucura, Daniela Arbex encontrou registros sobre a comercialização dos corpos para instituições de ensino de medicina, dentre eles, a Universidade Federal de Minas Gerais. As informações reveladas no livro Holocausto Brasileiro, constam que entre 1969 e 1981, cerca de 1.853 cadáveres foram vendidos para 17 instituições de ensino de medicina. Destes, 543 foram adquiridos pela UFMG com o intuito de serem usados nas aulas de anatomia da Faculdade de Medicina e do Instituto de Ciências Biológicas.
Virgílio encontrou resultados semelhantes aos de Arbex ao analisar os 15 cadernos de registro das vendas de cadáveres preservados no Museu da Loucura, em Barbacena. Os documentos registram as comercializações realizadas entre 1969 e 1981, e constam 1.867 cadáveres vendidos. Sobre a UFMG, o autor aponta que 303 corpos foram adquiridos pela Faculdade de Medicina e os outros 239 foram para o Instituto de Ciências Biológicas, totalizando 542 corpos.

Os levantamentos dos autores apresentam duas divergências. Enquanto Virgílio contabiliza 542 corpos destinados à UFMG, a soma dos números apresentados por Arbex resulta em 543. Outra diferença é em relação ao total de cadáveres comercializados. Enquanto Arbex registra 1.853 cadáveres comercializados entre 1969 e 1981, Virgílio identifica 1.867 registros nos cadernos preservados no Museu da Loucura. A diferença pode decorrer das distintas metodologias de pesquisa, do acesso a documentos diferentes ou da atualização do acervo consultado. Como ambos os estudos são referências sobre o tema, os dois levantamentos são considerados nesta reportagem.
Os dois indicam que cada “peça anatômica” — nomenclatura científica para corpos destinados a estudo — custava cerca de cinquenta cruzeiros, algo em torno de R$600,00 em janeiro de 2026, segundo o Índice Geral de Preços (IGP- DI) da Fundação Getúlio Vargas. Virgílio conta que nos 15 cadernos de registro também há peças no valor de duzentos e quinhentos cruzeiros, respectivamente R$2.400 e R$6.000, nos dias de hoje.
Além desses períodos citados pelos dois autores, 1969 e 1981, a UFMG recebeu outros cadáveres provenientes de Barbacena. Esses, por sua vez, não estão catalogados nos 15 livros de registro no Museu da Loucura e sim em outro registro histórico.
Em seu livro, Virgílio Mattos analisa o Livro de Registro de Cadáveres, um documento importante para a Faculdade de Medicina da UFMG. Nele há registros dos cadáveres que entraram e saíram da faculdade entre 1903 e 1967. O Livro possui 100 páginas, todas assinadas pelo diretor da época e numeradas, porém algumas páginas foram arrancadas e nunca mais achadas.

“Em 14 de agosto de 1954 (p. 55), começam a chegar os corpos vindos de Barbacena. Com o registro Barbacena Hospital Colônia. Trazem como causa mortis psicose, esquizofrenia, demência senil, epilepsia, oligofrenia... São mais de 500 só das páginas 55 a 79, considerando-se que a página 77 foi arrancada posteriormente, percebe-se por quê? Daí até o final temos mais duas páginas faltantes (91 e 92) e um total de mais 315 corpos, vindos apenas de Barbacena. Não existem acasos em registros, muito menos a supressão deles.” | Página 92, do livro “Mercadoria: O corpo do louco morto”, Virgílio de Mattos
Considerando as análises de Virgílio, a UFMG recebeu mais 815 cadáveres vindos de Barbacena entre 1954 e 1967. Juntando com os outros registros históricos e os números recolhidos por Arbex, está registrado que a UFMG recebeu pelo menos 1.357 corpos de pessoas que viveram, sofreram e morreram no campo de concentração chamado Colônia.
A luta antimanicomial
Em 1979, no auge da crueldade que aconteceu dentro dos muros dos hospitais, uma comitiva foi montada para adentrar o Hospital Colônia, dentre eles estava o cineasta Helvécio Ratton. O objetivo era filmar o que estava acontecendo dentro do hospital. Era a primeira vez que uma câmera de cinema entrava em um hospício no Brasil, e na época o Colônia era o maior do país. O filme que Ratton gravou lá dentro, Em nome da Razão, foi um divisor de águas na luta antimanicomial.

Em entrevista à Ru3, Helvécio Ratton contou sobre como conseguiu entrar no hospital para a produção do filme.
“Aconteceu da seguinte maneira. Nós estávamos vivendo em plena ditadura na época, em 1979. Eu estava fazendo psicologia e participando muito desse movimento anti-manicomial. Aconteceu que a Secretaria de Saúde liberou uma visita ao Hospital Colônia para jornalistas e estudantes. E eu me inscrevi para ir também e eles permitiram a nossa saída. Então, eu fui junto com essa turma toda. Tivemos um dia de visita lá no hospital. E eu fiquei escandalizado com o que eu vi. Fiquei realmente horrorizado.
Que era uma coisa impressionante. E voltei com o sentimento de que eu devia fazer um filme imediatamente. Eu devia fazer um filme. Nós solicitamos à Secretaria de Saúde e eles autorizaram. E eu falei, poxa, eu tenho que montar uma equipe imediatamente. Então, eu montei uma equipe de guerrilha, praticamente. Para que pudéssemos ir logo lá e fazer isso. E assim foi. Aí nós fomos. Eu passei lá uma semana filmando lá.
A luta antimanicomial em Minas Gerais já vinha ganhando força desde a publicação de uma série de reportagens do jornalista Hiram Firmino, em 1979, de nome “Nos porões da Loucura”.
Nessa época um psiquiatra italiano reconhecido mundialmente na luta antimanicomial também veio ao Brasil conhecer a situação dos manicômios aqui. Franco Basaglia ficou conhecido após liderar o movimento para fechar o Hospício de Trieste, na Itália. O psiquiatra adentrou o Hospital Colônia de Barbacena e ficou horrorizado com a condição daquele manicômio, o comparando com um campo de concentração nazista. A declaração foi publicada na mídia e repercutiu na época.
Nesse contexto, com a mídia revelando o que estava acontecendo dentro dos muros daquele lugar e com a forte presença dos movimentos antimanicomiais, as autoridades do estado recorrem ao grupo de residentes de Antonio Simone, médico que convidou Basaglia para conhecer Minas Gerais. Dentre eles estava Jairo Toledo que assumiu a diretoria do hospital, com a intenção de reformular o modo de tratamento.
Com a entrada do novo diretor do hospital, as coisas começam a mudar. Os funcionários que não tinham qualificação nenhuma para estarem ali foram encaminhados para cursos de enfermagem. O local começou a ser limpo com frequência, iniciou-se uma rotina de banhos e os pacientes passaram a receber alimentação adequada.
Dessa maneira, em 2001 foi promulgada a Lei da Reforma Psiquiátrica, que previu o fim das internações permanentes e compulsórias e a criação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
No dia 25 de maio de 2026, os últimos 14 pacientes foram transferidos para residências terapêuticas, marcando, assim, simbolicamente, o fim do maior símbolo manicomial do país. Ao todo, o hospital funcionou por cerca de 120 anos e custou a vida de aproximadamente 60 mil pessoas.
Como funciona a doação de corpos usados hoje na UFMG?
Atualmente a UFMG conta com um programa inovador de aquisição de cadáveres para serem utilizados em aulas de anatomia. Pautado pelo lema em latim “Hic Mors Gaudet Succurrere Vitae”, que significa “aqui a morte se alegra em socorrer a vida”, o “Vida após a Vida” é um sistema ético e legal embasado na doação voluntária de corpos.
Esse projeto foi criado em 1999 pelo professor Humberto José Alves que, motivado pelo desejo de uma senhora em estado terminal de doar o corpo, idealizou um sistema que garante a dignidade e a legalidade no processo de recebimento de corpos, enfatizando a gratidão pelos doadores e seus familiares. Por meio do programa, os doadores manifestam a vontade de doação ainda em vida e a Faculdade de Medicina realiza o cadastro da intenção de doação post mortem e cobre os custos do translado. A operação conta com diversas tecnologias avançadas de congelamento, o chamado “Fresh Frozen Cadaver”, e com o apoio de sociedades médicas e hospitalares.
Pioneiro no Brasil, o programa “Vida após a Vida” é fundamental para um ensino de anatomia que prioriza a dignidade do paciente. Sobre isso, os professores do curso de Medicina da UFMG, Kennedy Oliveira e Luciana Diniz Silva, ressaltam que o cadáver é o primeiro paciente do aluno. Como docentes, eles tentam difundir a ideia de que o corpo tem uma história, fazendo-os ver esse corpo como a si ou a uma pessoa amada e não apenas como um objeto de estudo. Desse modo, é possível ao discente desenvolver a noção de que aquele cadáver já foi um ente querido para outrem e deve ser tratado como tal, ou seja, deve ser respeitado.
Resgatando o ensino de William Osler, médico clínico canadense, sobre a posição central do paciente para o estudo da medicina, os professores destacaram a importância desse contato (aluno-cadáver) para a aprimoração da compaixão, o desenvolvimento de um comportamento ético e respeitoso pelo corpo do outro e a consciência da terminalidade da vida como algo natural que deve acontecer.
Em entrevista para a Revista RU3, a professora Luciana disse:
“São pilares que nós da Medicina temos que voltar a fortalecer e que o cadáver vai ajudar a relação médico-paciente, porque através do cadáver eu vou desenvolver o respeito, a compaixão, o olhar procurando a dignidade e a delicadeza, vou saber que a medicina tem limite e que é necessário eu conviver com a saúde, mas entender que a morte é uma parte que precisa ser trabalhada.”
Além de atuar na a formação humanizada do profissional da saúde, os corpos doados para o programa permitem estudar em estruturas reais, cujas texturas, camadas e espessuras os modelos anatômicos artificiais ou outras tecnologias substitutivas ainda não conseguem replicar. Ademais, esses corpos são utilizados no treinamento de procedimentos, como intubação, suturas e traqueostomia, e de cirurgias complexas, como transplante de pulmão, e na testagem de novos equipamentos.
A doação voluntária é a maneira mais ética para faculdades de medicina obterem cadáveres para a educação. Durante os 27 anos de atuação, o “Vida após a Vida” já cadastrou cerca de 2.200 pessoas como voluntárias.
Para fazer o cadastro, é necessário agendar uma entrevista por meio do número (31) 3409-9739 ou pelo e-mail vidaaposavidaufmg@gmail.com. O doador deve ter, no mínimo, dezoito anos e a doação não impede a organização de um velório, desde que a duração da cerimônia não comprometa o estado de preservação do corpo.
Nesse primeiro contato, solicita-se o nome completo e CPF para conclusão do agendamento. Já na entrevista, detalhes sobre o processo legal, os métodos de preservação do corpo e dúvidas são esclarecidas. O doador assina o termo de doação, o qual exige duas testemunhas, e recebe a carteirinha de doador post mortem. Vale salientar que os familiares precisam ter ciência da decisão e concordar com ela, assim, o contato com a Faculdade pode ocorrer imediatamente após o falecimento e os procedimentos técnicos e legais efetivados.
O professor Kennedy, co-coordenador do programa, comenta sobre a importância daqueles que procuram o projeto:
“Nas entrevistas, os sentimentos de doar são reforçados. Quando a pessoa vem para o projeto, ela já se preparou, já leu ou escutou sobre. Às vezes, vem porque uma amiga, um parente passou por aqui e foi muito bem atendido, faleceu e está com o corpo aqui. Tem também o lado financeiro, que é gratuito porque a faculdade assume todas as despesas e faz o enterro e o outro lado que é o da caridade para a ciência, o altruísmo de disponibilizar o corpo para a gente estudar com os alunos”.
O “Vida após a Vida” nasceu de uma tentativa de tornar a aquisição de corpos pela UFMG um sistema legal, ético e responsável que prioriza o tratamento com dignidade dos doadores e de seus corpos. Assim, com o pedido de desculpas da UFMG pelo uso dos corpos do Hospital Colônia em Barbacena, espera-se que as pessoas tenham acesso a mais informações sobre o atual modo de arrecadação de cadáveres usado pela universidade, e que o medo e o preconceito associados ao tema sejam diminuídos.
Quais as pautas da luta antimanicomial hoje em dia?
No dia 18 de Maio se celebra o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. A data marca a defesa dos direitos das pessoas com sofrimento mental, o combate à exclusão social, a promoção de tratamentos que garantam a liberdade, a cidadania e o cuidado em comunidade.
Em Belo Horizonte ocorreram desfiles e passeatas que mobilizaram muitas pessoas no centro da cidade. Na Avenida Afonso Pena e em outros pontos do centro, a Escola de Samba Liberdade Ainda que Tam Tam marcou sua presença cantando sobre liberdade, ovacionando o SUS e repudiando os movimentos RedPill.
Mas afinal, se a Lei Antimanicomial, que deu fim aos manicômios como em Barbacena, foi promulgada em 2001, por que essas pessoas ainda vão às ruas para reivindicar seus direitos? Qual a importância da Luta Antimanicomial nos dias de hoje, 25 anos após a Lei da Reforma Psiquiátrica?
Para responder essas e outras perguntas a equipe da RU3 contactou o Fórum Mineiro de Saúde Mental (FMSM). O Fórum é um espaço de luta composto por inúmeras entidades políticas. Todas contra os manicômios e a favor da Reforma Psiquiátrica.
O primeiro passo foi entender quais as principais pautas e desafios da luta antimanicomial em Minas Gerais hoje. Para a professora de psicologia e militante antimanicomial Isabella Lima, o foco atual está no combate às instituições privadas de isolamento:
“Um enfrentamento importante que a luta antimanicomial mineira vem fazendo há alguns anos é em relação às comunidades terapêuticas, instituições reconhecidamente violadoras de direitos humanos. As comunidades terapêuticas, embora se apresentem como espaços de tratamento, são, na verdade, espaços de exclusão, de imposição de práticas religiosas e de trabalho forçado.”
As comunidades terapêuticas são instituições residenciais voltadas para o acolhimento de pessoas com dependência química ou transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas. O principal método de tratamento utilizado é a convivência, o trabalho e a abstinência. Essas instituições também têm forte presença de práticas de cunho religioso.
O modelo de tratamento tem fortes controvérsias e é constantemente criticado pelo modo de tratamento e pela violação dos Direitos Humanos. Um estudo divulgado no Seminário de Saúde Mental na Câmara dos Deputados em 2025, mostrou que em 205 comunidades terapêuticas avaliadas entre 2011 e 2024, 100% tiveram violações de direitos fundamentais.
Outra questão feita em relação a essas comunidades terapêuticas foi respondida por Rejane Borba Amaral – psicóloga, trabalhadora do SUS e do Tribunal de Justiça de MG (TJMG) e militante do Fórum Mineiro de Saúde Mental.
“As comunidades terapêuticas são criticadas pelo Fórum por reproduzirem a lógica de isolamento, privação de liberdade, violação de direitos humanos diversos, privatização da vida, da centralidade na laborterapia e religião e do aniquilamento subjetivo, sem qualquer participação do sujeito em seu plano de cuidado. As características que afirmam se tratar de cuidado não passam de uma repetição do que sempre aconteceu nos manicômios.”
Recentemente, a Câmara Municipal de Belo Horizonte pautou um projeto de lei que permitiria a internação involuntária de pessoas com dependência química em situação de rua. A psicóloga Rejane Borba Amaral critica duramente a proposta, afirmando que ela desumaniza essa população:
“Os projetos de lei desumanizam completamente as pessoas em situação de rua. Para problemas complexos a cidade tem oferecido “respostas simples” que escondem interesses econômicos e políticos. Criam na população comum o senso de que as pessoas na rua são o problema e não a falta de políticas de habitação, o preço dos aluguéis, a violência doméstica. Qualquer um de nós, meros cidadãos comuns, está mais próximo de parar nas ruas do que ocupar gabinetes ou ficarmos ricos. A internação compulsória ou involuntária desse público só tenta esconder falhas que são sistêmicas e culpar as vítimas pela sua posição de vulnerabilidade.”
Em escala nacional, o Brasil vive um processo de fechamento dos Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (os manicômios judiciários). Os manicômios judiciários são lugares para onde vão pessoas em sofrimento mental que estão em conflito com a lei, e queríamos saber como o Fórum se posiciona em relação a esse tema. Rejane Borba Amaral afirma que é possível sim que pessoas com transtornos mentais vivam em liberdade:
“O Fórum avalia o fechamento dos Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP) como um avanço histórico e tardio na consolidação da Lei da Reforma Psiquiátrica. Essa transição, impulsionada pela Política Antimanicomial do Poder Judiciário, corrige uma aberração jurídica e humanitária: a existência de pessoas cumprindo medidas de segurança perpétuas ou sem o devido acompanhamento terapêutico, sob o pretexto de periculosidade presumida.
Para o Fórum, a loucura não deve ser tratada sob a ótica da exclusão e do punitivismo. A alternativa real e legal para o cuidado dessas pessoas não é o abandono, mas sim a sua inclusão na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), de forma articulada com a justiça. Cabe mencionar que, ao contrário do que a sociedade imagina, a reinserção social além de desejável é totalmente possível e assim já se mostrou, como no mutirão realizado pelo PAIPJ (Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário) dentro do Hospital de Custódia Jorge Vaz em Barbacena. Na oportunidade 108 pacientes que lá estavam, em total abandono e situações também violadoras, de forma segura voltaram para o convívio familiar e/ou no território tendo a porta de entrada do manicômio ficado fechada por dois anos.”
A luta antimanicomial não acabou com a promulgação da Lei da Reforma Psiquiátrica. Mesmo após 25 anos da reforma, a mobilização e luta dos movimentos a favor da saúde mental livre de manicômios ainda se faz necessária, já que o direito das pessoas em situação de sofrimento mental não é respeitado em muitos lugares.
Editoria: Gabriel Barcelos
Revisão: Matheus Avila





