Por Luiza Ferreira
Nos últimos meses, relatos de ex-alunos e professores das instituições Waldorf ganharam espaço nas redes sociais. As escolas Waldorf integram uma rede de ensino que abrange desde jardim de infância até ensino médio e ficaram conhecidas por apresentar um percurso curricular diferente do tradicional.
A primeira escola Waldorf do mundo foi criada no início do século passado, pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, impulsionado pelo clima de hostilidade pós Primeira Guerra e sob demanda de uma instituição para os filhos dos operários da fábrica de cigarros Waldorf-Astória, na Alemanha. A metodologia é baseada na Trimembração do Organismo Social, que divide a sociedade em três esferas autônomas inspiradas nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa, e da antroposofia. De acordo com a Federação das Escolas Waldorf, essas instituições valorizam o desenvolvimento humano por meio da espiritualidade e das artes, de acordo com os aspectos individuais e nas particularidades da faixa etária dos indivíduos.
Rudolf Steiner e o nascimento da antroposofia
Segundo a Biografia de Rudolf Steiner, produzida pelo professor e pesquisador da antroposofia Sydney Saraiva Lafetá, para a Associação Brasileira de Aconselhamento Biográfico (ABAB), Steiner vivia desde criança experiências suprassensoriais. A primeira delas foi por volta dos 7 anos, quando viu, em uma estação ferroviária, o espírito da sua tia recém falecida pedindo-lhe ajuda. A situação, vivida de forma clarividente pelo filósofo, deu início a sua vida anímica e que, posteriormente, influenciou significativamente o desenvolvimento da sua filosofia: a antroposofia.
A palavra antroposofia vem do grego anthropos (ser humano) e sophia (sabedoria), o equivalente a “sabedoria do ser humano”. A ideia relaciona a tricotomia (corpo, alma e espírito) e a existência de um mundo espiritual, o qual só é perceptível através de uma consciência expandida e do pensamento independente. Steiner defende que, ao longo da evolução humana, os seres teriam se afastado desse mundo, mas, por meio da união entre matéria e espírito, é possível alcançar a compreensão integral do ser humano.
De acordo com a própria teoria antroposófica, o seu objetivo é tornar o ser humano cada vez “mais humano”, ou seja, aumentar sua consciência e deliberar sobre seus pensamentos e ações, até que se torne um ser “espiritualmente livre”. Essa linha filosófica também mantém fortes influências na agricultura, medicina e psicologia.
A metodologia no cenário brasileiro
A educação básica brasileira se fundamenta em duas principais correntes metodológicas: tradicionalistas e construtivistas. As escolas tradicionais foram criadas para universalizar o conhecimento por intermédio do professor, detentor do conhecimento, que repassa o conteúdo para os alunos. As construtivistas, por sua vez, veem os alunos como participantes ativos do processo de aprendizado.
De acordo com a Federação das Escolas Waldorf no Brasil (FEWB), atualmente existem mais de 1.100 escolas e 1.850 jardins de infância Waldorf espalhados pelo mundo. No Brasil, a primeira escola Waldorf chegou em 1956, quase 40 anos depois da escola de Waldorf-Astória, através de um casal de amigos estudiosos das obras pedagógicas de Rudolf Steiner que, incentivado por outros casais de imigrantes, ajudaram a implantar a primeira instituição Waldorf no Brasil no bairro Higienópolis, classe média-alta de São Paulo. Em 2025 existiam cerca de 450 escolas com essa pedagogia no país. Sua concentração, entretanto, localiza-se no estado de São Paulo.
Embora tenha nascido com a perspectiva de formar pessoas para transformar o mundo em um lugar melhor, sendo acessível às pessoas, atualmente as escolas Waldorf não têm essa característica, conforme destaca a Professora Marta Nörnberg, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Política Educacional e Trabalho Docente (INCT Gestrado) e professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel): “as primeiras escolas Waldorf não tinham essa característica do ensino privado como elas passaram a ter. Na verdade, as escolas eram financiadas, muitas vezes, pela própria caridade das pessoas, dos benfeitores ou de uma fundação que organiza. Hoje, elas já têm outra característica.”
A mensalidade varia conforme a série e a escola. A instituição Miguel Arcanjo Escola Waldorf, por exemplo, localizada na região da Pampulha de Belo Horizonte, custa em média de R$ 1800,00 por mês para os anos do ensino fundamental 2. Já o berçário do Colégio Rudolf Steiner de MG, em Nova Lima, tem a mensalidade de R$ 2.625,00. Em Belo Horizonte, estão registradas na FEWB oito instituições de ensino, quatro localizadas na região de Nova Lima.
Dessa forma, fica evidente que essas instituições não são acessíveis para todas as classes, sobretudo em um país como o Brasil, onde 79% da população frequenta o ensino público, de acordo com o Censo Escolar de 2024 realizado pelo Ministério da Educação (MEC).
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A Waldorf na prática
Ana Clara Gonzalez estudou no Colégio Rudolf Steiner de Minas Gerais do quarto ano do ensino fundamental até o décimo segundo ano, o equivalente ao 3° ano do ensino médio. Para ela, estudar nove anos em uma escola Waldorf foi imprescindível para o seu crescimento e desenvolvimento pessoal:
“Eles te ensinam a se colocar no mundo para o outro, a você não ter um pensamento egoísta e a estar à disposição do outro na sociedade. E isso é muito legal e importante, porque eu acho que hoje, no mundo que a gente vive, cada vez mais as pessoas estão se individualizando, olhando muito pro próprio umbigo.”
Ana contou que além das disciplinas consideradas básicas, como língua portuguesa, matemática, geografia e história, ela também estudou música, artes, modelagem, marcenaria, metalurgia, trabalhos manuais, jardinagem e alemão.
Na escola em que estudou, as turmas eram reduzidas para “o melhor aproveitamento do espaço e da relação entre estudantes e professores”. E, diferente da tradição conteudista, que distribui todas as disciplinas ao longo da grade semanal, as matérias na Waldorf são lecionadas em épocas, ou seja, durante um mês ensina-se uma disciplina e, no mês seguinte, outra. “A alfabetização só acontece a partir dos 7 anos, quando a criança completa seu primeiro setênio. Antes disso as crianças brincam na terra, na areia, escalam árvores… O acesso a telas é estritamente proibido”, destaca Ana Gonzalez.
O setênio corresponde a uma determinação da antroposofia, que considera o período de sete anos como definidor de um ciclo na evolução e no desenvolvimento humano. Dessa forma, as atividades abordadas pelas instituições Waldorf vão de acordo com o que seria adequado para cada ciclo de desenvolvimento.
Para Ana, o Colégio Waldorf a preparou melhor para as questões da vida do que uma escola tradicional, focada no estudo para o Enem. “Quando a gente entra em uma escola Waldorf, todos os pais e alunos sabem que o objetivo não é fazer com que você passe no ENEM, por mais que tenhamos todas as disciplinas exigidas pela prova. O foco principal, na verdade, é fazer com que o aluno se torne uma pessoa com habilidades que serão realmente aproveitadas por ele no futuro e desenvolver uma visão de mundo mais aberta e inclusiva”, explica.
Aline Barcelos matriculou seu primeiro filho em uma escola Waldorf em Cuiabá, Mato Grosso, após longas pesquisas. No entanto, a prática não foi tão satisfatória quanto ela havia planejado. “O que a unidade escolhida entregava em relação ao que a metodologia ofertava, estava um pouco, ou muito, distante”, disse.
Como mãe, Aline procurava em um sistema de ensino dois pontos cruciais: que fosse um ambiente seguro e que priorizasse o aprimoramento intelectual da criança. “É como se estivéssemos em uma escola dos anos 80, tanto em estrutura como em relacionamentos. As áreas verdes estavam presentes na unidade, as crianças tinham permissão para correr, brincar, se divertir nos intervalos. Mas, por exemplo, as aulas de culinária eram muito diferentes do proposto. O que acontecia era de uma vez no ano - sem exageros - as crianças faziam um pão ou um bolo. E na prática, nem o faziam, de fato, apenas participavam no ato de bater ou amassar. O mesmo acontecia com a botânica, em que uma vez no ano visitavam a horta, mas a mão na areia mesmo... não rolava”.
Para Aline, o ensino tradicional brasileiro ensina recortes de muitas coisas, mas de forma rasa e sem aprofundamentos. “Um exemplo, a Língua Portuguesa. Nossa língua é belíssima, e uma vírgula pode mudar inteiramente uma mensagem. A capacidade poética de se usar os pronomes, suas ambiguidades, se usadas corretamente, há de se encontrar beleza em uma simples conversa. Os verbos, os advérbios, suas construções adequadas, fascinam… E o que encontramos no ensino tradicional? Fragmentos confusos e a ideia errônea de que é necessário decorar para a prova da próxima semana”.
Mas… O que está por trás do hype?
Recentemente, ex-alunos e professores começaram a relatar suas experiências com a metodologia Waldorf. No TikTok, por exemplo, são inúmeros os vídeos de ex-alunos e alunas que contam sobre as habilidades adquiridas graças às escolas Waldorf, dentre elas esculturas de argila, construção de bicicletas, composição de músicas e pintura de telas. Filho da criadora de conteúdo Estéfi Machado, o Téo, mostrou no perfil @blog.estefi.machado materiais escolares de quando ele estudava em uma instituição Waldorf. A postagem dividiu os comentários entre curiosos, apoiadores e críticos à metodologia.
Em um desses vídeos do TikTok, Michelle Borborema (@michelleborborema) lê o relato escrito por uma ex-professora de uma escola Waldorf de Minas Gerais. No relato em questão, a professora diz ter procurado o curso de formação Waldorf assim que saiu da graduação em Pedagogia. Nessa formação, houve vários acontecimentos questionados pela profissional, alguns, inclusive, que associavam a discordância de determinadas “verdades incontestáveis” para a antroposofia a uma falta de elevação espiritual do professor. Michelle tem mais de 13 mil seguidores na rede e o vídeo do relato acumula hoje mais de 30 mil curtidas.
Por tratar-se de uma metodologia pouco difundida no Brasil e com pouca possibilidade de acesso por maioria da população, o hype das escolas Waldorf nas redes sociais pode ser explicado pelas grandes distinções entre o que a metodologia oferece e o que é considerado como ensino tradicional no Brasil. A curiosidade vêm da existência de instituições com fundamentos esotéricos num país onde a maior parte das escolas se originam do catolicismo, por meio da Companhia de Jesus.
Contribuição para a sociedade
A professora Marta Nörnberg defende que atualmente a ética do cuidado envolve não só a relação que o ser humano tem com o outro, que lhe é inerente, mas também a forma como cada um integra ao meio ambiente, chamado por ela de “casa comum”. “Eu acho que hoje, a ética do cuidado está fortemente vinculada a essa atenção e foco nas questões dessa nossa casa comum. Isso envolve as questões climáticas, a forma como nós usamos os recursos naturais, a forma como nós produzimos ou essa intensificação de produção acelerada de materiais e de produtos, que a gente teria que nos perguntar: nós precisamos de tudo isso mesmo para para viver? E isso é algo que eu sempre aponto quando eu visito as escolas”.
Uma das preocupações das instituições Waldorf é no desenvolvimento do indivíduo em uma relação com o meio ambiente e a natureza e, para a professora, essa é uma importante contribuição da metodologia para a sociedade: “hoje em dia a maioria das nossas instituições carecem de ter espaços físicos que de fato se preserve essa relação com com o ambiente. Se a gente amplia isso para a sociedade e para as nossas cidades, a gente vê o quanto nossos espaços de ambientes naturais são cada vez menores.”
Editoria: Gabriel Barcelos
Revisão: Mayra Barbosa
Editado última vez no dia 11/09/2026 às 11h57







Que bom ver a contribuição da professora Marta para a RU3!